A estreia de Gieco no cinema

Gieco
León Gieco
Músico e artista popular.

Com 40 anos de trajetória, León Gieco é um dos máximos expoentes da música popular argentina. Músicas como “E usou peço a Deus”, “Cinco séculos igual” ou “No país da liberdade” Tornaram-no reconhecido em todo o mundo.

Estreada de forma recente, Mundo Alas representa sua estreia como diretor de cinema, acompanhado por Sebastián Schindel e Fernando Molnar. Trata-se de um road movie que descreve a turnê nacional que o autor de “Bandidos rurais” realizou junto a um grupo de jovens artistas –músicos, dançarinos, pintores- com diferentes tipos de deficiências.

Não se pode dizer que Mundo Alas tenha sido “um projeto”, em todo caso, tratou-se de uma série de surpresas que foram alinhavando-se. De fato, nem sequer foi ideia minha. Há quinze anos conheci Pancho Chévez, que é de Capitán Bermúdez. Ele vai de cadeira de rodas, porque não tem pernas nem braços. Depois de um show de música veio no meu vestiário e me disse: “Como faço para ser famoso como você?”. Então olhei para ele e lhe disse que se queria ser músico eu lhe dava uma harmônica, que era o instrumento que podia tocar e que me serve muito em minha carreira. E na mesma semana estava tocando em meus shows.

Depois com Pancho participamos de um programa de TV, que apresentava Juan Alberto Badía, e tocamos apenas uma música, “Eu só peço a Deus”. E o público doou um monte de coisas, até um minibus de 100 mil dólares, ao lar no qual Pancho morava. Então foi que percebi que acontecia alguma coisa poderosa, e que podia comover algumas pessoas. A verdade é que eu não o fazia porque me sentisse comovido com a deficiência de Pancho, senão porque via nele essa força que estar no cenário oferece e que eu também tinha quando era menino.

Depois o ex-presidente Néstor Kirchner fez Pancho conhecer a Casa do Governo e se gerou uma excelente relação entre eles. Então, Pancho começou a chamar à Presidência para dizer que queria tocar no Salão Branco, “onde haviam tocado Luis Alberto Spinetta, Charly García e León Gieco”. Portanto, chamaram-me da Casa do Governo e disseram que organizasse algo a Pancho, porque tinha muitos desejos de tocar ali.

Eu já havia tocado no Salão Branco, então comecei a pensar em que âmbito montava este show de música a Pancho. Assim, lembrei-me de todos os artistas com diferentes deficiências que haviam tocado comigo e eram muitos. Convoquei a todos, reunimo-nos às 2 da tarde e às 5 tocamos na Casa do Governo. Chamou-se “Um Salão Branco diferente”.

As pessoas se comoveram muito. E um dos comovidos foi Jorge Álvarez, o anterior presidente do Instituto Nacional de Cinema, que eu conhecia. E ele me disse que “devíamo fazer um documentário”. Depois o Canal Encontro também somou-se à iniciativa e fizemos a turnê para fazer o documentário e dez capítulos para TV.

O roteiro de Mundo Alas tem um crescimento dramático, há propostas de casamento, compõe-se uma música e concretiza-se o sonho das crianças, de tocar no Luna Park. Não é qualquer um que toca no Luna Park, é similar a que um menino dos Estados Unidos toque no Madison Square Garden de Nova York.

Sei que as pessoas, às vezes, não querem enfrentar-se com os problemas. E eu tenho acostumado às pessoas a que minhas músicas sejam de protesto, mas neste filme não há nenhuma denúncia. Mundo Alas é uma road movie de liberdade, de amor e de música. As pessoas acreditam que é uma denúncia sobre o sofrimento das pessoas que têm alguma deficiência, sobre as dificuldades de sua vida na cidade. Mas não, é um filme extremamente feliz e acho que as pessoas choram pela impotência que dá ter se queixado de bobagens durante toda a vida.

O filme apresentar-se-á nas universidades, nos colégios secundários, nas escolas primárias, em programas especiais e no exterior. Alguns dizem que o filme é a coroação do projeto Mundo Alas. Porém não há nenhuma coroação, tudo começa agora, porque tem de defender o filme, tem de fazer com que as pessoas assistam, tem de gerar espetáculos para que estas crianças possam trabalhar como artistas, tem de dar-lhe promoção aos dez capítulos que vai emitir pelo Canal Encuentro.

Sítio Web de Mundo Alas

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