Gyula Kosice, homenageado nos EUA

Kosice
Gyula Kosice
Artista plástico

Criador do “Manifesto Madí” em 1946, Gyula Kosice é um dos promotores da primeira tentativa para promover a arte abstrata na América Latina. Com obras que integram museus e coleções privadas dos Estados Unidos, Europa, Ásia e América Latina, entre suas contribuições fundamentais à história da arte estão o hidrocinetismo, a água móvel, as obras lumínicas, a utilização do gás néon e a Cidade Hidroespacial. “Quando a criação está animada por vínculos invencionistas, sua ordem expressa e projeta outras fonéticas. É o caso de Gyula Kosice: um inventor, um taumaturgo, um porvenirista que celebra em cada uma de suas obras, a ideia de um novo universo. Sua história artística é sem dúvida, a história de um trabalhador que sabe bem onde a forma pulsa, como fazer para que a matéria palpite, em que medida o movimento gera (sobre a energia) o vitalismo que convoca o olho”, define Jorge Taverna Irigoyen, presidente da Academia Nacional de Belas Artes.

A autobiografia não é um simples anedotário. A partir da ruptura que significou a invenção de Madí até o projeto da Cidade Hidroespacial, é um olhar sobre a arte moderna e a contemporânea, um observatório das personalidades que marcaram o século XX.

O livro é um processo que começou há mais de dois anos e meio. Representa a revisão de toda minha trajetória. Narro minhas reuniões com artistas, arquitetos, escritores e filósofos, como Jean Paul Sartre, André Malraux, Ray Bradbury, Alberto Giacometti, Umberto Eco, Lucio Fontana, Max Bill, Jorge Luis Borges, Octavio Paz, Le Corbusier. Relato desde minha infância até hoje, com uma travessia muito comprida e muito densa, que explica em grandes traços tudo o que eu pude dizer e fazer, através da fundação de grupos e movimentos artísticos ou os trabalhos com a luz e a água em movimento. O importante é que leiam o livro e descubram minhas falhas geológicas…

O Museum of Fine Arts of Houston (Texas, Estados Unidos) comprou grande parte de minha obra e agora vão criar uma sala Kosice dedicada às minhas obras. Além das maquetes das cidades hidroespaciais, também serão expostas outras obras minhas, compradas previamente.

Já na editora da revista Arturo de 1944 eu dizia que “o homem não terminará na terra”. A partir dessa afirmação comecei a fazer algumas maquetes para pensar como podia viver o homem no espaço, com seus correspondentes lugares para viver. Essa suspensão de habitats realiza-se descompondo a água por eletrólise, um procedimento que permite utilizar oxigênio para respirar e introduzir o hidrogênio em uma máquina de fissão nuclear que forneceria energia mais que suficiente. O combustível sempre é a água, porque é a origem do ser humano e nosso planeta tem três quartos de água.

Desde o início, eu estava convencido de que era uma necessidade. E toda necessidade biológica requer um tempo que tem de revelar-se. Tudo é possível, mas não imediatamente. Sem duvida ainda não se deu, porque não estão suspensos os habitats nem tampouco estão funcionando as cidades hidroespaciais. Porém, isso também me impulsiona para dizer que vai vir no dia em que não haja alternativa para tudo isso. Que evidentemente é uma condição sine qua non da proposta.

Temos 6.500 milhões de habitantes no mundo e se esse número aumentar 30%, imaginem onde vamos chegar? Ante essa tendência terrível, perguntei-me onde iriam morar essas pessoas. E há que ocupar o espaço. Uma utopia é utopia até que deixa de sê-lo. Depois virão outras utopias, mas por enquanto tem de cumprir outras necessidades imediatas. No entanto, na verdade, a cidade hidroespacial não é uma utopia, senão uma proposta científica. Em Marte, na lua ou no sol não existe água, por isso nós mesmos temos que nos ajeitar com o que temos.

Os “lugares para morar” que proponho com as cidades hidroespaciais estão concretamente inventados. São lugares diferentes dos tradicionais; e a distinção radica em que já não estão mais a cozinha, o banheiro, o quarto, o que nós temos como lugares prefixados de antemão. Proponho um lugar “para ter vontade”, outro “para esquecer o esquecimento, com um anexo para memórias livres”; um “lugar do inimaginável através do júbilo pessoal e coletivo”, e uma “ponte para transitar do azar à administração do azar”.

Sou de origem húngara, e na viagem de barco para a Argentina, com apenas quatro anos, o único que via era água e estrelas. Foram 31 dias de viagem com minha família no oceano Atlântico e tudo era água, água, água. Quando tinha dez anos fiquei órfão e ficou em mim -como um sedimento- a necessidade de relacionar-me com a arte. Fui à Academia Livre, à Escola Nacional de Belas Artes Manuel Belgrano, porém me cansei de copiar naturezas mortas, dos desenhos vivos, de copiar uma suposta realidade, que eu não achava necessária.

Não tem nada, nada absolutamente estático no universo, tudo está em movimento. Por isso, comecei a trabalhar com o hidrocinetismo, a água em movimento. Também fui quem começou a utilizar gás néon, sempre procurei estar na vanguarda com os elementos que a sociedade me dava.

Considero-me um artista -se lhes parece, com uma projeção não comum-, e cuja fonte de inspiração permanente é o fator do acontecer. Isto é, o tempo; e portanto, o espaço, que cada pessoa tem de utilizar a favor do ser humano.

Sitio Kosice

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